Saber ouvir também é um exercício de autodisciplina

Respeitar o tempo de fala, acolher opiniões divergentes e organizar as próprias reações são práticas que ajudam a construir conversas mais construtivas.

Em uma discussão, é comum preparar a resposta enquanto a outra pessoa ainda está falando. Quando isso acontece, ouvir deixa de ser uma tentativa de compreender e se torna apenas uma espera pela vez de falar. Para o consultor de gestão Ichak Adizes, esse comportamento ajuda a explicar por que tantas conversas terminam em conflito, mesmo quando os envolvidos desejam chegar a um entendimento.

Em artigo publicado na Heartfulness Magazine, Adizes argumenta que uma comunicação construtiva depende de três atitudes: paciência para permitir que uma conversa se desenvolva, tolerância para escutar quem pensa diferente e autodisciplina para não reagir imediatamente ao que incomoda. O desafio, segundo ele, é manter o respeito mútuo justamente quando há discordância.

Uma regra simples para ouvir melhor

Adizes propõe um exercício que pode ser aplicado em reuniões e conversas em grupo: cada pessoa fala sem ser interrompida e, ao terminar, passa a palavra a quem está à sua direita. É quem está falando que determina quando concluiu sua participação. A regra vale mesmo quando outra pessoa demonstra ansiedade para falar ou já pediu a palavra.

A dinâmica exige que os participantes controlem a vontade de responder imediatamente. Ao esperar sua vez, também têm a oportunidade de ouvir argumentos e perspectivas que talvez não tivessem considerado. Assim, o exercício não se limita a organizar a conversa: procura criar condições para que o respeito às diferenças seja colocado em prática.

Como lidar com o desconforto de discordar

Para Adizes, ouvir uma opinião contrária pode provocar irritação, impaciência e vontade de interromper. Em vez de expressar essas reações no calor da conversa, ele sugere registrá-las por escrito, sem compartilhar as anotações. A proposta é criar um espaço para reconhecer e organizar as próprias emoções antes de responder.

O consultor recomenda ainda uma sequência para apresentar objeções: começar pelas perguntas, expor as dúvidas também em forma de perguntas e, depois, apresentar as discordâncias que permanecerem relevantes. A orientação é fazer isso com tranquilidade e respeito, sem transformar o desacordo em confronto pessoal.

Essas práticas podem ser úteis tanto no ambiente de trabalho quanto nas relações familiares e sociais. Mais do que evitar conflitos, a proposta é aprender a atravessá-los sem perder a disposição para compreender o outro.

Essa atenção às próprias reações também se aproxima de um princípio importante do Heartfulness: desenvolver a capacidade de observar o que acontece dentro de nós antes de agir. Ao criar uma pausa entre o impulso e a resposta, abrimos espaço para uma escuta mais consciente e para relações pautadas pelo respeito mútuo.

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