Mudar é preciso

Daaji diferencia ter desejos de ser dominado por eles e aponta o que trava a transformação interior.

O desejo de mudança pode ser bastante recorrente entre as pessoas, mas nem sempre é fácil examinar o que, dentro de si, resiste a ele. Essa é a questão que atravessa uma conversa publicada na edição de outubro da Heartfulness Magazine, na qual Daaji, guia global do Heartfulness, responde a perguntas do consultor Ichak Adizes sobre a oração Heartfulness.

O ponto de partida é uma expressão da oração: a de que o praticante ainda está preso aos desejos. Adizes sugere que o obstáculo real não seriam os desejos, mas as expectativas, e que bastaria deixar de esperar. Daaji propõe outra leitura. Para ele, a oração não condena o ato de desejar. Querer o bem de um filho, por exemplo, é algo natural, parte do que torna alguém humano. O que a oração alerta é para o momento em que o desejo deixa de ser vivido e passa a mandar em quem deseja.

Daaji descreve esse processo como uma escada. O desejo se transforma em vontade firme, depois em expectativa, depois em cobrança, depois em um “é um direito meu”, e termina em isolamento e culpa. O pai ou a mãe que começa torcendo pela felicidade do filho acaba roteirizando a vida dele. O que nasceu como carinho vira uma gaiola, para os dois lados. Segundo Daaji, a oração atua no primeiro degrau, antes de a expectativa se instalar.

Para ilustrar a ideia, ele recorre à neurociência, citando as pesquisas do professor Kent Berridge, da Universidade de Michigan, que distinguem “querer” de “gostar”: o sistema cerebral que impulsiona a busca, ligado à dopamina, seria diferente do que sustenta o prazer em si. Daí a experiência comum de perseguir algo com intensidade sem de fato desfrutá-lo, como passar horas em redes sociais e sair pior do que entrou. 

O antídoto não é sufocar o que se sente. Daaji fala de testemunhar: perceber que um desejo surgiu, vê-lo e deixá-lo passar, sem lutar contra ele nem agarrá-lo. Há espaço entre o impulso e a ação, e nesse espaço a pessoa recupera a escolha.

A conversa também enfrenta uma pergunta delicada: por que a oração se dirige a um “Mestre” e isso não seria culto à personalidade? Daaji responde que o mestre autêntico não pede adoração e apresenta um teste simples: ele forma mestres, não seguidores. Cita Babuji: “Eu não faço escravos, eu faço mestres.” Para Daaji, o Mestre funciona como uma ponte entre quem pratica e o estado de consciência que busca, algo que um conceito abstrato dificilmente consegue transmitir. E o amor, diferentemente de um culto, estimula perguntas e liberta.

O que impede a mudança, afirma, são duas forças: a inércia, que prefere o conforto do que já conhece, e o ego, que interpreta tudo pelo que isso significa “para mim”. O alerta final é direto: não confundir conforto com contentamento.

A pergunta que o texto deixa ao leitor é simples: o que, em você, está disposto a ser mudado?

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