Meditação no trabalho ganha espaço diante de saúde ocupacional

Atualização da NR-1 amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais, enquanto estudos apontam benefícios da meditação Heartfulness para estresse, sono e burnout

A saúde mental no ambiente de trabalho ganhou uma nova dimensão no Brasil. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as empresas passaram a ter de identificar, avaliar e gerenciar também os riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como estresse crônico, sobrecarga e assédio. Esses fatores passam a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos já contemplados pela norma.

A mudança ocorre em um cenário de aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental. Levantamentos do Ministério da Previdência Social apontaram crescimento de 67% nos afastamentos por transtornos mentais entre 2023 e 2024. 

Nesse contexto, práticas voltadas à redução do estresse, à qualidade do sono e ao bem-estar dos trabalhadores ganham espaço nas discussões sobre saúde ocupacional. Entre elas está a meditação, cuja eficácia vem sendo investigada em diferentes populações e contextos profissionais.

Estudos específicos sobre a meditação Heartfulness também começam a reunir evidências nesse campo. Uma pesquisa publicada em 2024 no Journal of Family Medicine and Primary Care, com 41 profissionais de saúde acompanhados durante oito semanas, observou redução do estresse percebido e melhora na qualidade do sono após a participação em um programa de meditação.

Outro estudo, realizado com profissionais do sistema WellSpan Health, dos Estados Unidos, e publicado em 2025, identificou diferenças estatisticamente significativas nos escores relacionados a burnout e insônia entre participantes que praticaram meditação e um grupo de controle. Trata-se de uma pesquisa realizada com 117 profissionais de saúde e apresentada no congresso SHM Converge 2025. O estudo foi conduzido em um único centro e avaliou uma intervenção de oito semanas de meditação Heartfulness.

As evidências mais amplas sobre meditação seguem na mesma direção, embora indiquem também os limites do conhecimento atual. Uma revisão sistemática publicada neste ano na Health Psychology Review, que reuniu 132 ensaios clínicos sobre diferentes programas de meditação, encontrou efeitos consistentes sobre estresse, ansiedade e sono. Por outro lado, não identificou diferenças estatisticamente significativas em alguns marcadores biológicos, como cortisol e pressão arterial.

O conjunto dos estudos sugere, portanto, que os efeitos da meditação sobre aspectos subjetivos e comportamentais do bem-estar — como percepção de estresse, sono e sintomas relacionados ao burnout — têm ganhado respaldo científico, enquanto os efeitos sobre indicadores fisiológicos ainda exigem investigação.

Para as empresas, a discussão vai além da adoção de uma prática isolada. A nova realidade regulatória coloca a prevenção e o gerenciamento dos riscos psicossociais no centro da saúde ocupacional. Nesse cenário, iniciativas como a meditação podem fazer parte de uma estratégia mais ampla de promoção de saúde e bem-estar no trabalho, especialmente quando associadas a outras medidas de prevenção e às mudanças necessárias na própria organização do ambiente profissional.

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